
Levantamento aponta alta incidência de dificuldades financeiras no setor. Entre os casos está o Grupo Murici, que busca renegociar R$ 250,5 milhões em dívidas e declara operar cerca de 3,5 mil veículos.
O setor de transporte e logística encerrou o segundo trimestre de 2026 com 557 empresas em recuperação judicial no Brasil. O número corresponde a 6,2 empresas nessa condição para cada mil companhias ativas, colocando o segmento na terceira posição entre as atividades econômicas com maior incidência proporcional de processos no país.
Os dados são do Monitor RGF-BIZDOC, que considera uma base de 89.372 empresas ativas de transporte e logística. Em números absolutos, o setor ocupa a quinta posição entre as atividades analisadas.
O cenário chama a atenção especialmente quando comparado ao comércio. Embora esse segmento registre 1.333 empresas em recuperação judicial, sua incidência proporcional é de aproximadamente dois casos para cada mil companhias ativas, menos de um terço da observada no transporte e na logística.
No conjunto da economia brasileira, o levantamento contabilizou 6.341 empresas em recuperação judicial ao final do primeiro semestre de 2026, crescimento de 6,2% em relação ao encerramento de 2025.
Entre os casos que ilustram as dificuldades enfrentadas pelo setor está o do Grupo Murici, formado por três empresas de transporte e logística que apresentaram à Justiça uma relação de credores de aproximadamente R$ 250,5 milhões.
Grupo Murici busca renegociar R$ 250,5 milhões
O Grupo Murici, composto pelas empresas Murici Transportes e Logística, Transportes Murici e Grigora Logística e Transportes, teve o processamento de sua recuperação judicial deferido em 25 de agosto de 2026 pela 2ª Vara de Falências e Recuperações Judiciais de São Paulo.
A relação de credores apresentada pelas empresas soma R$ 250.464.985,73. Desse total, aproximadamente R$ 211,3 milhões correspondem a créditos quirografários, R$ 37,5 milhões a créditos trabalhistas e R$ 1,6 milhão a obrigações com microempresas e empresas de pequeno porte.
Segundo os documentos apresentados no processo, o grupo declarou operar aproximadamente 3.500 veículos e manter 1.228 colaboradores diretos.
As empresas apontaram o aumento dos custos operacionais, o endividamento e mudanças nas relações comerciais como fatores que contribuíram para as dificuldades financeiras. Essas informações correspondem às justificativas apresentadas pelas próprias recuperandas e não representam, necessariamente, conclusões independentes do juízo.
Plano prevê descontos de até 85% e pagamentos em dez anos
Em 27 de outubro, o Grupo Murici apresentou um plano de recuperação judicial com condições distintas de pagamento conforme a categoria dos credores.
Para os créditos quirografários, a proposta prevê desconto de 85% sobre os valores reconhecidos, carência de 24 meses após a homologação do plano e pagamento do saldo em até 120 parcelas mensais.
Para os créditos trabalhistas abrangidos pelas condições gerais, a proposta estabelece desconto de 40%, com pagamento em até 12 meses. Já para microempresas e empresas de pequeno porte, o plano prevê desconto de 70%, carência de um ano e quitação em até 12 meses após esse período.
O documento também apresenta alternativas específicas para determinadas categorias de credores, com condições diferenciadas conforme as características das obrigações.
É importante destacar que essas condições integram uma proposta apresentada pelas empresas. Sua efetivação depende das etapas legais de análise, deliberação e eventual homologação judicial. A apresentação do plano, por si só, não significa que os descontos e prazos já estejam aprovados.
Concentração de receitas também aparece entre os fatores da crise
Outro ponto relevante nos documentos do Grupo Murici é a concentração de receitas em um único cliente.
Segundo as informações apresentadas pelas empresas à Justiça, o Mercado Livre respondeu, em média, por 58,1% do faturamento do grupo entre janeiro de 2025 e abril de 2026.
As transportadoras apontaram mudanças nessa relação comercial como um dos fatores que contribuíram para o desequilíbrio financeiro. No plano apresentado em outubro, informaram que a relação com o cliente estava em fase de encerramento e indicaram a intenção de concentrar esforços em outros contratantes, entre eles Shopee, Coca-Cola e Petlove.
O documento também prevê ajustes na frota, nas bases operacionais e no quadro de pessoal, buscando adequar a estrutura de custos ao volume de contratos que o grupo pretende manter.
A situação evidencia um risco relevante para empresas cuja operação depende de poucos contratos de grande porte: alterações na relação comercial podem comprometer parcela significativa da receita e dificultar o cumprimento de obrigações financeiras e operacionais.
Custos operacionais pressionam o transporte rodoviário
O transporte de cargas exige uma estrutura operacional intensiva em recursos. Combustível, manutenção, aquisição e financiamento de veículos, despesas com pessoal e capital de giro fazem parte dos custos necessários para manter a atividade.
Essas despesas precisam ser administradas em conjunto com os prazos de recebimento dos clientes e os compromissos assumidos com fornecedores e instituições financeiras.
Em operações de grande escala, alterações nos custos ou no volume de serviços podem produzir impactos relevantes sobre o fluxo de caixa. Quando a empresa não consegue repassar integralmente os aumentos de despesas aos preços dos contratos, suas margens podem ficar ainda mais pressionadas.
O custo do crédito também merece atenção, especialmente para transportadoras que dependem de financiamento para aquisição e renovação de frota ou para sustentar o capital de giro.
Embora esses fatores ajudem a contextualizar os desafios do setor, cada pedido de recuperação judicial possui circunstâncias próprias. No caso do Grupo Murici, as justificativas específicas constam dos documentos apresentados pelas próprias empresas.
Recuperação judicial busca preservar a atividade e reorganizar dívidas
A recuperação judicial, regulamentada pela Lei nº 11.101/2005, permite que empresas em dificuldades econômico-financeiras negociem suas obrigações com credores, buscando superar a crise e preservar a continuidade das atividades.
O deferimento do processamento marca o início do procedimento judicial. A empresa deve apresentar um plano de recuperação, que será submetido às etapas de análise e deliberação previstas na legislação.
Durante esse processo, a administração judicial acompanha o cumprimento das obrigações legais, a verificação dos créditos e a comunicação entre as empresas e seus credores.
No caso do Grupo Murici, a administradora judicial Wald foi nomeada para acompanhar o procedimento, que tramita na 2ª Vara de Falências e Recuperações Judiciais do Foro Central de São Paulo.
A apresentação do plano de outubro representa uma nova etapa das negociações, mas a reestruturação ainda depende dos procedimentos legais e da deliberação dos credores.
Gestão financeira é decisiva para a sustentabilidade das transportadoras
Os dados do Monitor RGF-BIZDOC mostram que transporte e logística estão entre os setores com maior incidência proporcional de empresas em recuperação judicial no Brasil.
O caso do Grupo Murici demonstra a dimensão que uma crise financeira pode alcançar em uma operação de grande porte, envolvendo centenas de milhões de reais em obrigações, milhares de veículos, trabalhadores e contratos comerciais.
Nesse contexto, o acompanhamento do fluxo de caixa, o controle do endividamento, a análise da rentabilidade dos contratos e a diversificação da carteira de clientes são aspectos fundamentais para a gestão financeira das transportadoras.
A recuperação judicial pode oferecer um ambiente estruturado para a negociação de dívidas, mas a sustentabilidade do negócio também depende da capacidade de reorganizar a operação e gerar resultados compatíveis com os compromissos assumidos.
Para empresas do setor, identificar desequilíbrios financeiros com antecedência e avaliar alternativas de reestruturação pode ser determinante para preservar a atividade e reduzir os impactos de uma crise sobre credores, colaboradores e parceiros comerciais.
Contato:
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(41) 98805-8779
Fontes:
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Click Petróleo e Gás. “557 empresas de transporte e logística estão em recuperação judicial no Brasil, e transportadora com 3,5 mil veículos tenta renegociar R$ 250 milhões”. Publicado em 1º de novembro de 2026.
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ANATC. “Transporte e logística têm 557 empresas em recuperação judicial no Brasil”. Publicado em 29 de outubro de 2026 e atualizado em 3 de novembro de 2026.
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Wald Administração Judicial. Documentos do processo de recuperação judicial do Grupo Murici.